O DIÁRIO DO CRÍTICO (LÚCIO CARDOSO)

 

Ana Maria Cordeiro - UFSC/Centro Universitário de Jaraguá do Sul-SC

 

O terror não é um movimento de abertura e de esclarecimento, mas ao contrário, uma ocasião de fuga, uma possibilidade de segredo e de renúncia à luz do dia.

 

Lúcio Cardoso

 

O movimento de recolhimento e dispersão ou desleitura chama atenção nos escritos de Lúcio Cardoso, como uma tentativa de resguardar o sujeito reprimido. Feito personagens de almas aprisionadas, saídas dos contos de Hawthorne ou Edgar Poe, sua linguagem é rearticulada no “Diário de terror”. Ele escreve no “diário” seus medos e como homem reflete sobre a vida e sua obra como um dever, tentando assim unir seus princípios a uma prática. Uma exata e minuciosa descrição de seus sentimentos o conduz a uma aprovação ou censura daquilo que surge como novo.

Semelhante a alguns de seus precursores, Lúcio Cardoso retoma temas, como a obscuridade e a solidão, como símbolo da modernidade de sua obra, transformando a representação da realidade, em realidade da representação. São sentimentos como a solidão, o medo e a desesperança que ele escreve tristemente e compara-os como sendo “pausas” que não se explicam na vida, feita de hiatos enormes, na vida de todos os homens ou de todos os grandes homens:

 

Sei que d’agora em diante todos os meus escritos, bons ou maus, devem traduzir o sentimento da mais desesperada esperança. Desesperada porque não acreditando mais no tempo em que vivo, nem em suas possibilidades e nem em sua sobrevivência, isto deve me causar pânico, como todas as transformações essenciais; esperança porque é o homem novo que vislumbro além dessas ruínas. Do momento em que reconheço isto, é criminoso da minha parte não precipitar o caos – é retardar o começo e pactuar com a sobrevivência dos cadáveres. Minha mais constante vontade deve ser a de um arrasamento contínuo. Meu trabalho é o de desagregar e fazer empunhar armas. Por que aí vem o tempo em que não subsistirá pedra sobre pedra como diz o evangelho. E o novo homem que deve surgir me impregna de tal entusiasmo, sua intuição me faz vibrar numa tão impetuosa corrente de vida, que eu muitas vezes hesitante ainda, não posso duvidar mais e caminho no mundo conhecido como entre as formas de um universo desvitalizado e sem arrimo.[1]

 

O diarista é um fingidor. Finge a si e aos outros.

Assim, poderia então tentar começar a analisar o “Diário de Terror”. No entanto, pergunto-me: será possível explicar o diário de Lúcio Cardoso como um tempo de terror? Como explicar ou tentar entender o homem que mostra no diário a face de um ser extemporâneo, fora do seu tempo e lugar? Poderia também a partir daí começar a articular a idéia do diário como uma trama da narrativa íntima e da própria ficção. Para ser um diarista é preciso ser sincero, pois segundo Blanchot “a sinceridade é essa transparência que lhe permite não lançar sombra sobre a existência limitada de cada dia (...)”[2]. No entanto, assim mesmo acredito que o diarista é também um fingidor, considerando que em sua ânsia de anotar fatos ou sentimentos, o diarista seleciona o que lhe convém para sua escritura, acrescida de uma boa dose de imaginação e ficção. Todo diário deve respeitar o calendário, isto é uma verdade. Porém, o diário de Lúcio foge, em sua estrutura, de uma convencional e limitada essência de seu cotidiano. Daí a razão de um diário sem data. O diário torna-se aqui o espaço de uma escrita angustiada e na qual o desejo, enquanto forma de expressão, transpõe também os valores históricos da existência humana.

O terror torna-se então o tema do alinhavo que cerze pontos e linhas, as lacunas e os espaços que entremeiam a narrativa. O terror é também tema recorrente enquanto paráfrase de um mesmo tema, em última instância, é algo que percorre todas as definições e foge ao mesmo tempo de todas elas. É simultaneamente: solidão, ultrapassamento, transformação, consciência e sedução. É viver a vida intensamente, pois ao viver fora desse estado de passional terror, a vida torna-se comum. Em torno do núcleo ou terror, gira ainda o tema do homem que nascerá dessa época, de um novo ser que está por vir. Um ser feito de exceções, repleto de temores às estabilidades da vida, como algo fora de alcance e longe de chegar a nos pertencer. Conviver com este sentimento representa um desafio constante aos limites humanos, por isso deseja-se tanto esquecê-lo. Acreditamos que esquecer significa já não mais lembrar, mas esquecer não é a palavra adequada, então, ele escreve. É uma forma de não perder o pensamento, pois quem escreve se inscreve. Desse modo, todo diário torna-se uma história. Ao escrever, o esforço do diarista é maior, pois ele tem necessidade de não deixar escapar nenhum detalhe do cotidiano. Nada pode ser abandonado ou esquecido, nada pode passar em vão. Parece existir uma rejeição, uma atrofia nas palavras que teimam em não se libertarem do pensamento e assim em não chegarem intactas ao papel. Entre o pensamento e a folha existe um mal irremediável: não se pode materializar o pensamento e escrever significa de certa forma sua cristalização.

É natural que a escrita seja uma tarefa difícil para o escritor demonstrar seus anseios, angústias ou mesmo fazer brotar conscientemente seus belos propósitos. Este é o momento que Lúcio denomina de “criação no centro das catástrofes”. Digo isso também para mim e quando refiro a mim, já não sou ou sei mais quem sou... Este eu agora já é um outro a quem falo, alguém que me questiona e parece não me pertencer. Assim, deixo-me parar e refletir sobre o artifício da escrita e do diário. Nele tudo pode ser escrito, o que vale é o registro do momento. Questionamos sua validade quando o lemos porque cada leitura é uma reelaboração de escritura.

Então, quem é este ser que escreve o Diário de Terror? Este homem que não admite nenhuma certeza e para quem a estabilidade produz um princípio falso? Ele é o esfacelamento de sua consciência e dos próprios sentimentos, um ser sem esperança no futuro, cuja opção recai sobre a vida como um fragmento ou mosaicos que formam o quadro de sua existência. Ele é o homem que tenta ultrapassar seus próprios limites, mesmo em situações extremas. O ultrapassamento é seu lema de luta: é preciso destruir para construir de novo, é preciso desconstruir para nascer o novo. Transpor esses limites significa também a impossibilidade de aceitar a vida dentro de um passado instituído e um futuro que não existe.

Para esse diarista, a vida parece ser recriada com o mesmo clima de paixão que encontramos num “romance”. Semelhante ao clima de seus romances, ele se declara apaixonado por seu leitor: seu desejo é levá-lo ao delírio passional que alucina o raciocínio, até o ponto de querer destruí-lo ou violentá-lo de paixão. A perspectiva nietzscheana recai na escolha da escritura em aforismos e na crença de que é possível criar e recriar, porém, sem colocar nas palavras nenhuma certeza: “o homem de maior espírito, não é o de uma única resposta, nem o da resposta mais constante, mas o de várias respostas ao mesmo tempo, e o mais mutável quanto à certeza delas”[3].

Assim, o terror é o olhar mágico do precursor, que nos dá medo e fascina pela simples hipótese de sua desaprovação. Contra esse olhar lutamos para nos sentirmos livres de seu poder, assim como também tememos a formação ou a identificação de um Outro ser. Assim, é que a maior angústia para quem escreve é a de se tornar apenas uma réplica mal elaborada, uma mera imitação.

A escrita em fragmento mostra que o artista sabe que o registro de seu pensamento não pode ser longo, cheio de digressões. O importante é não se perder em outros pensamentos, o ritmo da escrita deve ser compassado como um tema que nos persegue, como uma arma que corta a rotina da vida. Tentar analisar as idéias deslocadas da escrita em fragmento, tende a legitimar esse estilo. O fragmento é, enfim, o modo mais econômico e sutil de se utilizar a palavra. Forte e solitário, ele eleva o pensamento na escrita de um modo hiperbólico para uma libertação da vida. Esse pensamento solitário resulta numa redução nietzscheana que corresponde à vida no eterno retorno de si, no gesto de curvar-se ante as próprias palavras ou ainda na insistente consciência do terror de sua alma. É um pensamento completo de conhecimento e pleno de desejo no qual o terror é uma necessidade que se autogera. É uma luta que ele cria para levar esse sentimento a um estado de exceção que se coloca como a grande força de seu texto. Esse diarista acredita que o homem não mais exige o entusiasmo de sua solidão como um sentimento religioso que exala a fé. Assim é que no “Diário de Terror” parece que quanto mais a alma angustiada do escritor se sente fora de si, mais e mais uma idéia salta a outra como perseguida por um pensamento semi-alucinado. As idéias se emaranham, lutam e revoltam-se umas contra as outras. No entanto, o diarista não as deixa se perderem; ele recolhe-as num mesmo fio condutor, meio incertas ainda e retoma seu objetivo anterior. Entendemos que a escrita de Lúcio Cardoso não é articulada com o propósito de se tornar puramente literária; ao contrário, o artista do diário escreve como por impulso, não apenas pelo contato de suas experiências cotidianas. Percebemos seus objetos de prazer e rejeição através de seus escritos, conseguimos separar imagens de sentimentos, retocando e reelaborando as palavras, multiplicando os significados e os sentimentos, dando forma e sentido particular aos seus pensamentos.

Um grande risco que corre o artista é saber demasiado bem o seu ofício, vale dizer, conhecer a escritura. Quem escreve muitas vezes não escreve porque pensa ou, por vezes, não pensou para escrever. Quem escreve está sujeito aos ataques da crítica, bem como à sua própria autocrítica. Assim, quando relê seu texto, altera ou transforma as anotações no momento de sua escritura. No “Diário de Terror” esta questão genética da escritura aparece de forma sutil, mas de forma que não pode ser relegada. Por se tratar de um manuscrito, a importância da rasura é observada não como forma de tornar sua escrita literariamente erudita, mas sim de dar-lhe um polimento poético e exato no seu primeiro espaço enquanto texto.

Muito embora o romancista de Crônica da Casa Assassinadapertença à geração dos escritores modernistas que reivindicam da literatura uma forma canônica na forma de um anticânone, esta renovação literária não é alcançada de todo. Persiste em sua escrita uma forma, ou talvez fórmula, romântica por meio da qual suas reflexões não passam de características existenciais de um temperamento sensível. O “Diário de Terror” é uma paráfrase constante do próprio título. São divagações sobre a vida como fonte de paixão e liberdade: “ (...) esta é a minha liberdade, e tão difícil e perigosa quanto seja ela, é o que garante a autenticidade do que digo, e a certeza de que uma nova época nasceu para mim”[4].

No diário em questão, uma nova verdade se cria com base no isolamento, na solidão ou na paixão que, embora inconscientes, agem como forças de potência, impulsionando o homem para seu próprio abismo. Todos esses suportes que sustentam sua memória e sua alma já não são mais do que simples figuras que reforçam sua potência natural. O descontentamento com o presente e uma dolorida aspiração pelo infinito fazem o diarista sofrer. Ele busca reencontrar suas crenças e não as alcança; tenta buscar a paz e sua liberdade, mas acaba achando-as duvidosas e insuficientes. Tudo o que ele procura aqui parece se encontrar um pouco mais além, e assim ergue-se esse diarista como arquétipo do homem moderno, agitado por seus sentimentos, arrebatando-o para uma triste melancolia. Encontramos, assim o contista da “Papoula Azul”, parecendo não perceber que estamos ouvindo-o. Ele fala para si mesmo. Seu pensamento flui leve como versos ritmados e suas palavras são formas vivas que nos inspiram emoções. No diário parece residir sua vida, sem mentiras nem ornamentos. Nisso consiste o valor do seu diário; um testemunho dos sentimentos humanos sob o olhar crítico daquele que não observa impassível o esfacelamento de suas idéias e de sua vida.



[1] Texto extraído do manuscrito “Diário de Terror” de Lúcio Cardoso. Caderno formato pequeno, 27 fls. e letra de forma. Muito embora esse texto faça parte da edição crítica elaborada por Mário Carelli, optamos trabalhar diretamente com o manuscrito. A consulta foi feita no Arquivo Lúcio Cardoso da Fundação Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro.

3 Maurice BLANCHOT. “O diário íntimo e a narrativa”. In: O Livro por vir. Tradução de Maria Regina Louro. Lisboa: Relógio d’Agua, 1984. p.192.

[3] In: Cardoso, Lúcio. “Diário de Terror”.

[4] Idem. Ibidem.